sábado, 3 de agosto de 2024

Outra vez

File:Dürer - Rhinoceros.jpg - Wikipedia 

Rinocerontes ferozes

Pisotearam meu jardim

Assustados e medrosos

Defenderam-se atacando

 

Cercas derrubadas

Bancos quebrados

Canteiros desolados

Árvores caídas

 

Outra vez eles vieram

Não sei de onde

Nem suas razões

O estrago está feito

 

As delicadas flores

Os saborosos frutos

Os lugares de encontro

Pisoteados

 

Colocarei muros de pedra?

Cercas elétricas?

Não quero bunker

Só um jardim.

 

Rinocerontes velozes

Adubaram meu jardim

Revolveram a terra

Fecundos espaços abertos.

 

Árvores cicatrizadas

Bancos de pedra

Canteiros refeitos

A vida não para!

Borboleta dourada

 

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Pousou sobre meu peito,

inesperadamente,

despertando azuis e dourados

no coração que pulsava

sob suas delicadas asas.

 

A beleza paralisou as mãos

que queriam tocar

reter o efêmero e gratuito.

O coração desejou

que ela fosse eterna. 

 

Suavemente voou...

deixando um vazio

que antes parecia não existir

as cores lançaram raízes...

nada será como antes!

Tempo e distância

 



Queria esquecer-me de ti,

queria esquecer que queria

e lembro sempre do que queria.

Essa lembrança doce,

que torna presente o doloroso ausente.

Queria esquecer, não tocar nada que lembrasse,

não pensar em poesia

não sonhar com a justiça

não contemplar estrelas em noite escura

não caminhar pelos campos

não sentir as cores

não ouvir música

não louvar, não comer,

não esbarrar com a verdade 

nem roçar o desejo,

parar de respirar, se possível fosse...

O peixe esquece a água?

Essa água da Amizade viva

da qual vive...

lembrar faz sofrer

mas esquecer, deixar de ser...

quero lembrar-me sempre

até que o sempre se plenifique

para além dos limites.

Janelas e asas

 


Janela sobre o vale aberto de sol

aberta a alma quer saltar,

cair ou voar.

Insustentavelmente leve

levianamente pesada.

Asas cansadas? Enferrujadas?

Coração sedento,

desta água misteriosa, secreta...

da qual tenho saudades,

nada te substitui!

Saudade secreta aberta sobre a janela,

a água quer saltar aberta sobre o sol,

asas pesadas?

insustentavelmente enferrujadas?

cair levianamente...

leve voar...

saltar sedento sobre o coração aberto

insustentavelmente aberto

levianamente cansado...

do qual tenho saudades,

secretas, misteriosas,

pesadas, leves...

Vale cair? ou voar?

substitui a janela! nada!

Sol, água...

Asas abertas sobre o vale cansado, enferrujado

cair nestas águas misteriosas.

Desejos

 



Amo desejar-te

desejo amar-te,

Beleza sempre nova

e sempre antiga, 

abismo atraente,

escuridão impenetrável.

Tu, que os céus e a terra

não podem conter,

ouso querer-te,

para além da miséria,

da tentação, do pecado...

Em tudo isso...

ouso desejar-te

com volúpia humana,

a única que tenho.

Ouso procurar-te

na matéria humana,

a única que tenho.

Ouso mergulhar num deserto,

inseguro, inóspito, solitário, 

Ouso, criatura,

desejar o Criador,

o vazio que deseja a plenitude,

o servo que suspira 

a amizade de seu Senhor.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SACRAMENTUM PARADISI



Com espadas de fogo

dois anjos abrem velhas portas
do terreno sagrado,
ponte do futuro-passado.
Aqui,
meus carneiros pastam
com teus leões
e teus bezerros com meus tigres.
Não tememos.
inocentes,
por a mão em toca de víboras,
nem de seguir, obedientes,
a voz de um Menino.
Irrigado de tantas águas
este solo, este momento
floresce de todas as cores
de todos os frutos.
Damos nomes aos bichos
sem chamá-los bons ou maus.
A terra graciosamente reconciliada
faz-se fecunda e generosa.
Partos sem dores
da união dos opostos.
A nudez não assusta,
não incomoda, não excita.
O ruído de passos no Jardim
no fim da tarde
alegra o coração:
É quem esperávamos !!

O BARCO

Atravessando o deserto

puxando, empurrando um pesado barco,

grande, muito maior que o corpo, sem rodas,

na areia quente, nas rochas incandescentes...

O paradoxo lateja

mais que todos os músculos...

A tentação de dizer: “basta!”

queima mais que a garganta seca...

A sutileza de perguntar “por quê?”

uma sombra, que não se vê.

A floresta que aparece 

confunde o seco navegante,

mato fechado, os espinhos, a subida...

fazem achar doce o deserto.

Inundado de calor úmido, 

sente saudades do seco...

Mas sobe mato adentro

com criatividade e humor,

frutos da experiência.

Do alto da serra,

aparece o mar:

pequena parte do mistério do barco seco.

A descida, abrupta,

perigosamente pesada, 

descansa na praia gentil.

Prepara-se o navegante seco 

para enfrentar o Alto Mar,

sente-se pronto para tudo, 

depois de tanta luta...

— “Coloca no barco tudo o que amas!” —

a ideia o agrada sobremaneira...

— “Empurra o barco para a água... deixa-o...” —



Despreparado para tudo, obedece

já perto do desvario...

"Recebe-me", repete silencioso,

"não sei se estou indo, no que amo, 

ou ficando, no amar".

Mas o amor não podia ser diferente.