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sábado, 3 de agosto de 2024

Outra vez

File:Dürer - Rhinoceros.jpg - Wikipedia 

Rinocerontes ferozes

Pisotearam meu jardim

Assustados e medrosos

Defenderam-se atacando

 

Cercas derrubadas

Bancos quebrados

Canteiros desolados

Árvores caídas

 

Outra vez eles vieram

Não sei de onde

Nem suas razões

O estrago está feito

 

As delicadas flores

Os saborosos frutos

Os lugares de encontro

Pisoteados

 

Colocarei muros de pedra?

Cercas elétricas?

Não quero bunker

Só um jardim.

 

Rinocerontes velozes

Adubaram meu jardim

Revolveram a terra

Fecundos espaços abertos.

 

Árvores cicatrizadas

Bancos de pedra

Canteiros refeitos

A vida não para!

Desejos

 



Amo desejar-te

desejo amar-te,

Beleza sempre nova

e sempre antiga, 

abismo atraente,

escuridão impenetrável.

Tu, que os céus e a terra

não podem conter,

ouso querer-te,

para além da miséria,

da tentação, do pecado...

Em tudo isso...

ouso desejar-te

com volúpia humana,

a única que tenho.

Ouso procurar-te

na matéria humana,

a única que tenho.

Ouso mergulhar num deserto,

inseguro, inóspito, solitário, 

Ouso, criatura,

desejar o Criador,

o vazio que deseja a plenitude,

o servo que suspira 

a amizade de seu Senhor.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SACRAMENTUM PARADISI



Com espadas de fogo

dois anjos abrem velhas portas
do terreno sagrado,
ponte do futuro-passado.
Aqui,
meus carneiros pastam
com teus leões
e teus bezerros com meus tigres.
Não tememos.
inocentes,
por a mão em toca de víboras,
nem de seguir, obedientes,
a voz de um Menino.
Irrigado de tantas águas
este solo, este momento
floresce de todas as cores
de todos os frutos.
Damos nomes aos bichos
sem chamá-los bons ou maus.
A terra graciosamente reconciliada
faz-se fecunda e generosa.
Partos sem dores
da união dos opostos.
A nudez não assusta,
não incomoda, não excita.
O ruído de passos no Jardim
no fim da tarde
alegra o coração:
É quem esperávamos !!

quarta-feira, 7 de março de 2012

After

Depois que passastes...

e o vento assobiante
tentava, em vão,
apagar tua presença,
a mágica invadiu
meus territórios,
sem pedir licenças,
no reles das coisas.

Depois que passastes...
deixando-me sem palavras,
para exprimir o inexprimível,
os olhos se abriram
num imenso silêncio:
o inefável
é a única coisa que conta.

Depois que passastes...
revirando minha casa
de pernas pra cima,
olho tranqüilo e imóvel,
e tudo isso parece
que lhe cai bem.

Depois que passastes
enchendo de colorido outonal
um dia cinzento,
um rastro de luz dourada
aqueceu meu quarto
na noite fria
de todas ausências.

Depois que passastes...
pensei em correr-te encalço,
em segurar entre os dedos
a fina areia do tempo
inexorável movimento
de fluídas liberdades.

Depois que passastes...
quando as fortes emoções
enfraqueceram-se
entendi sem entender
o eterno suceder-se
de momentos irrepetíveis
e as despedidas
que preparam
novos encontros.